A ADORAÇÃO EUCARÍSTICA NA VIDA DA IGREJA

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P. CARLOS CABECINHAS

A celebração da Eucaristia é o centro de toda a vida cristã. Mas as formas de piedade eucarística não se esgotam na celebração. De entre essas formas emerge a adoração eucarística como uma das mais importantes e significativas. Não pretendo nestas linhas senão sublinhar a sua importância na vida da Igreja e da Mensagem de Fátima, recordando algumas afirmações do Magistério recente.
Nos primeiros séculos da Igreja, a «reserva eucarística» destinava-se a guardar de maneira digna a Eucaristia, para ser levada aos doentes e aos moribundos. Contudo, no decurso dos séculos, «pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo na sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor, presente sob as espécies eucarísticas» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1379).
O Papa João Paulo 11, na Encíclica «A Igreja vive da Eucaristia», diz-nos que «o culto prestado à Eucaristia fora da Missa é um valor inestimável na vida da Igreja». E convida-nos a demorar-nos com Cristo presente na Eucaristia, inclinando a cabeça sobre o seu peito, como o discípulo amado na última ceia, deixando-nos tocar pelo amor infinito do seu coração (n. 25). Também o Papa Bento XVI, na recente Exortação pós-sinodal «Sacramento da Caridade», alerta para o significado e importância da adoração eucarística: «Na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se connosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior acto de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d’Aquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com Ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste. O acto de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica» (n.o 66).
Ora, a mensagem de Fátima tem uma dimensão profundamente eucarística. Se as aparições do Anjo, em 1916, foram o «prelúdio eucarístico» da mensagem de Fátima, a aparição de Tuy em 1929, constitui o seu «epílogo eucarístico»: «As aparições do Anjo e a última aparição em Tuy constituem, respectivamente, o pórtico de entrada e a chave de abóbada, à luz das quais deve ser enquadrada e perspectivada toda a mensagem» (D. António Marto). A esta luz, as atitudes de adoração e reparação aparecem-nos como as mais típicas de uma espiritualidade eucarística da mensagem de Fátima, como testemunhou sobretudo o pequeno Francisco, com o seu amor e devoção a «Jesus Escondido». Assim se compreende que a adoração eucarística tenha tido, desde início, um lugar de enorme relevo na vida do Santuário.
A mensagem de Fátima recorda-nos constantemente o apelo do Papa João Paulo II: «A Igreja e o mundo têm grande necessidade do culto eucarístico… Não cesse nunca a nossa adoração» (Carta «Dominicae Cenae», n.3).