O Natal é, por excelência, a festa do amor!

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Na criação, tanto amou Deus o homem, que o fez à sua imagem e semelhança. Na redenção amou-o até se fazer semelhante ao homem. O Filho de Deus, “nascendo de Maria Virgem … fez-se verdadeiramente um de nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (GS 22).

O Natal é, por excelência, a festa do amor! Do amor que se revela, não nos sofrimentos da cruz, mas na amabilidade de um Menino, nosso Deus, que estende ao mundo os braços, para fazê-lo compreender que o ama. Se a consideração da justiça infinita pode mover a maior fidelidade no serviço de Deus, quanto mais a consideração do seu infinito amor! Para correr no caminho dos mandamentos divinos, precisa o homem dilatar o coração na convicção da infinita caridade de Deus.

Eis por que é eficacíssima a contemplação do mistério natalino! “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos a sua glória, glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Mas em Belém, a glória do Verbo Eterno, consubstancial ao Pai, como ele eterno, onipotente, criador do universo, está inteiramente escondida em um Menino que, desde o primeiro instante de sua vida terrena, não só compartilha plenamente de todas as fraquezas humanas, mas experimenta-as nas condições mais miseráveis e abjetas.

“Recordai-vos, ó Criador do mundo – canta a Liturgia natalina – que um dia, nascendo do seio puríssimo da Virgem, tomastes um corpo semelhante ao nosso… Só vós, do seio do Pai, viestes salvar o mundo” (BR). A comovente prece fala ao coração de Deus e fala ao coração dos fiéis: a Deus, recorda as maravilhas realizadas por seu amor, para a salvação dos homens; aos fiéis repete a grande verdade: “Deus é amor”. Diante da manjedoura de Belém cumpre repetir sem cessar: “E nós conhecemos e cremos no amor de Deus por nós” (1Jo 4,16).

“Deus é amor!” (1Jo 4,16). O tesouro encerrado nesta palavra da Sagrada Escritura é imenso! É o tesouro que Deus descobre e revela a quem sabe concentrar-se totalmente na contemplação do Verbo Encarnado. Enquanto não compreendemos que Deus é amor infinito, infinita benevolência que se dá e estende a todos os homens para lhes comunicar seu bem e sua felicidade, nossa vida espiritual permanece em gérmen, não está ainda desenvolvida, nem é ainda profunda. Só quando o cristão, iluminado pelo Espírito Santo, penetra o mistério da divina caridade, sua vida interior atinge a plenitude, a maturidade.

Não podemos compreender melhor o amor infinito de Deus, do que aproximando-nos da pobre manjedoura, onde está encarnado por nós. Jesus, o Verbo, a Palavra do Pai, diz a todos e a cada um a grande palavra: Deus te ama!

As virtudes e os atributos divinos descobrem-se em Deus por meio dos sublimes mistérios do Homem-Deus, ensina S. João da Cruz (C 37,2), e entre estes atributos, o primeiro é sempre o da caridade, que constitui a própria essência divina. Da contemplação amorosa e silenciosa de Jesus Menino, nasce uma consciência mais profunda e penetrante do seu infinito amor: não é somente crer, é, de certo modo, experimentar que Deus nos ama.

Então aceita a vontade, plenamente, o que lhe ensina a fé, aceita-o com amor, com todas as forças e a criatura se lança inteiramente a crer no amor infinito. Deus é caridade! Esta verdade fundamental de toda a vida cristã penetra-lhe profundamente no coração; sente-a, vive-a porque quase a apalpou em seu Deus encarnado; e quem assim crê no amor infinito saberá dar-se a ele sem medida, totalmente.

Frei Gabriel de Santa Maria Madalena, OCD