NÓS VIMOS A SUA GLÓRIA: MANIFESTAR DEUS À CIDADE

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A “Festa de Reis”, na verdade, é a Solenidade da Epifania do Senhor. É uma belíssima festa, ainda referente aos eventos do Natal de Jesus, e tem um significado muito especial para a Igreja. No centro das atenções está Jesus Cristo e não, propriamente, os Reis magos.

O filho de Maria, nascido pequeno e humilde em Belém, foi manifestado por uma luz divina aos Reis Magos e reconhecido por eles como o Filho de Deus, a quem cabe a honra do incenso; o Soberano Senhor, que abre a todos o reino de Deus e a quem cabem a riqueza e a glória do ouro; o Salvador, que redime a humanidade com sua morte, homenageado com mirra para a sua sepultura.

Os Reis Magos procuraram Jesus, seguindo uma estrela; finalmente, porém, descobriram que ele mesmo é a estrela-guia, a luz, o caminho, a verdade, a vida da humanidade. A Epifania mostra a intenção de Deus, ao enviar seu Filho ao mundo: manifestar sua glória, para que o homem seja atraído por ela, encontrado e envolvido por Ele, iluminado, orientado, plenificado…

Na língua grega, Epifania significa manifestação daquilo que estava oculto, ou também revelação. Toda História da Salvação, de fato, é uma sucessão de epifanias divinas: já na própria criação do mundo, com sua grandiosidade e a infinita variedade de seres, dá-se um espetáculo da glória divina, como bem soube expressar o salmista: Os céus proclamam a grandeza de Deus e a terra está cheia de sua glória, como de águas, o oceano! (cf Sl 8); nas sucessivas manifestações da presença e atuação de Deus na história dos homens, é sempre de novo sua glória que se manifesta e envolve o homem de vida e salvação.

Jesus Cristo é, por excelência, a epifania de Deus ao mundo; nele, “rosto humano de Deus e rosto divino do homem”, Deus manifesta claramente para onde quer atrair o homem: para a sua companhia e para a experiência inefável de sua vida e seu amor misericordioso. São João, no início do seu Evangelho, chega a dizer, cheio de entusiasmo: “nós vimos a sua glória, glória que recebe do seu Pai, como filho único, cheio de graça e de verdade… De sua plenitude, todos nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1,14.16).

As pessoas, que encontram Jesus Cristo, quando têm olhos puros e coração bom, também ficam arrebatadas pela glória de Deus, que se manifesta nas palavras, nos sinais e milagres e nas atitudes de Jesus. Nele e por ele, Deus quer chegar perto dos homens, estar com eles, amá-los, conduzi-los, fazê-los felizes. O Evangelho, do começo ao fim, fala da manifestação de Deus aos homens por meio de Jesus Cristo.

Ao terminar sua missão no mundo, Jesus Cristo enviou os apóstolos e, por eles, a Igreja toda, para que continuassem a fazer, pelos tempos afora, aquilo que ele próprio fez: anunciar a Boa Notícia da presença amorosa e luminosa de Deus com os homens e manifestar, a todos os povos o seu desígnio salvador, atrair a todos para sua glória, para a plenitude da vida. A glória de Deus irradia a própria presença de Deus. Esta mesma é a missão da Igreja: estar a serviço da permanente epifania de Deus aos homens, para que “os povos caminhem à sua luz e os reis, ao clarão de sua aurora” (cf Is 60,3).

Pensando bem, isso ilumina muito a vida e a missão da Igreja em São Paulo: qual outra seria, senão manifestar a glória de Deus e ser testemunha de Jesus Cristo para os habitantes desta cidade? Testemunhar que Deus habita esta cidade e sua presença é boa e salvadora para o povo que nela vive? De que modo isso acontece, ou deve acontecer?

Deus é livre para escolher o modo de se manifestar. Mas nós recebemos a clara missão de testemunhar sua glória na vida digna e santa de cada batizado, nas comunidades que se reúnem para a celebração dos Mistérios de Deus na Liturgia, no anúncio da Palavra de Deus, no testemunho multiforme da caridade… Para isso existe cada igreja, paróquia, obra social, educativa, cultural, assistencial da Igreja, cada iniciativa pastoral, cada organização eclesial. Sigamos, pois, a Estrela e deixemos que sua luz nos ilumine e se irradie também sobre nossa cidade!

Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo