Padre explica estrutura do matrimônio a partir da Criação

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“O que Deus uniu o homem não separe” (Mc 10,9)

Ao falar da família no plano de Deus, o Catecismo da Igreja Católica (CEC), diz que ela é “vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai” (CEC, 2205). Essas palavras indicam que a família é, na terra, a marca (“vestígio e imagem”) do próprio Deus, que através dela continua a sua obra criadora. Desde que existe a humanidade, existe a família, e ninguém jamais a pôde ou poderá destruir, pelo fato de que ela é divina; isto é, foi instituída por Deus. Como ensina o nosso Catecismo, ela é “a célula originária da vida social”. “É a sociedade natural na qual o homem e a mulher são chamados ao dom de si no amor e no dom da vida” (CEC, 2207). Nosso desejo é refletir um pouco mais sobre o matrimônio querido por Deus e defendido pela Igreja.

No livro do Gênesis (1,26-27), lemos que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e ressalta que “homem e mulher” os criou. Em Gn 2,18, acrescenta-se que “não é bom que o homem esteja só”, e Deus criou a mulher que foi reconhecida por Adão, ao dizer: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” Esta união e fidelidade conjugal são defendidas no decálogo (Ex 20,2-17), quando é dito de “não cometer adultério” e de “não desejar a mulher do próximo”.
Padre Mário Marcelo destaca que o matrimônio e a família estão inscritos no projeto de Deus / Foto: Arquivo

O ser humano não existe para viver solitário, porque tem sempre necessidade dos outros, porque é feito para o diálogo. “O homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24), neste relato exprime-se a ideia de união. A força dessa união é tal que supera qualquer ligação de sangue (… “deixa seu pai e sua mãe”). “E se une à sua mulher”, apontando para o matrimônio monogâmico, ou seja, sai das mãos de Deus o casal humano formado de um só homem e de uma só mulher. Esta é a estrutura do matrimônio em sua estrutura criacional.

Num contexto em que a mulher podia ser despedida ou repudiada, podendo ser dada uma carta de divórcio, Jesus vem e afirma a indissolubilidade: “O que Deus uniu o homem não separe” (Mc 10,9). Mateus 19,1-9 e Marcos 10,1-12 apresentam também este relato. Em Lucas 16,18 fica clara a afirmação: “Todo aquele que despede a sua mulher e se casa com outra comete adultério”. Jesus toma radicalmente posição contra o repúdio da mulher, contra qualquer forma de divórcio. Não há exceções. Jesus reenvia ao projeto Criador de Deus. “Nunca leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher… De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus uniu o homem não separe” (Mt 9,4-6). A estabilidade da aliança dos esposos faz parte do desígnio da criação.

“Este mistério é grande” diz São Paulo aos Efésios (5,32). “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a sua Igreja e se entregou por ela… É assim que os maridos devem amar as suas esposas, como amam seu próprio corpo. Aquele que ama a sua esposa está amando a si mesmo. Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Pelo contrário, a nutre e a cerca de cuidados, como Cristo faz com a Igreja, e nós somos membros do seu corpo” (Ef 5,25-30).

Todos estes textos bíblicos revelam que a família e o matrimônio inscrevem-se no projeto de Deus. “O homem e a mulher, sendo imagem e semelhança de Deus” (Gn 2,16), que é amor, são chamados a viver, no matrimônio, o mistério da comunhão e relação com a Trindade. Deus inscreve na pessoa humana a vocação e, consequentemente, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. No plano de Deus Criador e Redentor, a família descobre não só a sua identidade senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida.

Padre Mário Marcelo, doutor em Teologia Moral